
(Foto: José Cruz/Agência Brasil)
Com o gás de
cozinha custando mais de R$ 100 e a crise corroendo o orçamento das famílias
mais pobres, a lenha ganhou espaço nos lares brasileiros durante a pandemia. Em
2020, o consumo de restos de madeira em residências aumentou 1,8% frente a
2019, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE)
Famílias estão
guardando botijões de gás para usar apenas em emergências, e outras até
venderam o fogão para fazer dinheiro na crise. Como solução, recorrem à lenha e
ao carvão vegetal para cozinhar, um retrocesso em saúde e qualidade de vida.
Até 1970, 80% dos lares usavam pedaços de
madeira para cozinhar e se aquecer. Com a massificação da eletricidade e do gás
liquefeito de petróleo (GLP), o como gás de cozinha, esse quadro se alterou.
Hoje, a eletricidade é a principal fonte de energia, mas a lenha ainda ocupa a
segunda colocação na matriz residencial, com 26,1% de participação, seguida do
GLP (24,4%), de acordo com a EPE.
O gás estava sendo mais consumido do que a lenha
até 2017, quando o preço do botijão começou a disparar. Naquele ano, a
Petrobras alterou sua política de preços e começou a reajustar o GLP toda vez
que a cotação do petróleo e o câmbio subiam, assim como já fazia com a gasolina
e o óleo diesel.
Como a commodity se valorizou muito no ano
passado, o GLP disparou no Brasil. O resultado foi um crescimento ainda maior
do consumo de lenha em 2020, um ano de deterioração do mercado de trabalho e
escalada da inflação. As estatísticas de 2021 ainda não estão disponíveis. A
projeção do órgão de planejamento energético do governo, no entanto, é de que o
uso da lenha encolha apenas com “a retomada do crescimento da economia e o
aumento da renda”.
“Até a metade do
século 18, a lenha era a energia predominante, antes da invenção da máquina a
vapor. Com o avanço tecnológico, o carvão e, depois, o petróleo e o gás
assumiram a dianteira como fonte de energia. O avanço da lenha no Brasil
representa um retrocesso em 200 anos”, afirma Rodrigo Leão, pesquisador do
Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis
(Ineep).
Algumas alternativas de baixo custo e emissão
de carbono até são estudadas pela EPE. Uma delas é o aproveitamento de resíduos
sólidos urbanos para produzir gás. “Poderiam ser construídos grandes
biodigestores e canais de distribuição de biometano nas comunidades, por
exemplo. Mas esbarramos em muitas dificuldades, até na coleta seletiva do
lixo”, diz Carla Achão, superintendente de Estudos Econômicos, Energéticos e
Ambientais da EPE.
Sem alternativas. Enquanto novas soluções não
saem do papel, a demanda por lenha avança entre os mais pobres. Para essa fatia
da população, o peso da inflação nos gastos do dia a dia é 32% maior do que
para os mais ricos, segundo cálculos do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea), com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo
(IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A alta do gás foi um dos principais fatores para que os mais pobres sintam mais
o peso da inflação, diz o Ipea
Apenas neste
ano, a Petrobras já reajustou o preço do GLP em 47 53%. Desde o início de 2020,
a alta acumulada é de 81,5%. O aumento mais recente, de 7%, foi anunciado na
sexta-feira, após 95 dias de estabilidade e forte pressão política para segurar
o preço.
Um programa de acesso ao gás de cozinha está
sendo elaborado pela estatal. O conselho de administração da empresa aprovou a
liberação de R$ 300 milhões, em 15 meses, para ajudar as camadas mais pobres a
comprar o botijão. O modelo de distribuição desse dinheiro ainda não está
definido. Se fosse usado para custear integralmente o produto, esse valor seria
suficiente para beneficiar 400 mil famílias (considerando o botijão a R$ 100 e
a duração de um botijão por dois meses), um número de pessoas pequeno frente
aos cerca de 15 milhões inseridos no Programa Bolsa Família.
“É possível que parte da população que passou
a utilizar a lenha na pandemia não consiga voltar a consumir o GLP
imediatamente, no pós-pandemia. A lacuna econômica que se formou não será
extinta na mesma velocidade da retomada. E, ainda, uma parte dessa mesma
população vai pensar em comer carne antes de comprar gás. Esse é um problema
social que vai além da questão do gás e precisa ser analisado de forma mais estruturada
e em conjunto com programas sociais”, avalia Anderson Dutra, sócio da KPMG e
especialista em energia e recursos naturais.