
(Foto: Reprodução/internet)
A variante do
coronavírus detectada no final de 2020 no Reino Unido, que cientistas suspeitam
que seja mais transmissível e esteja relacionada à alta de casos de Covid-19,
parece já ter chegado a Minas Gerais. Um grupo de pesquisadores do Instituto de
Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sequencia o
genoma de vírus coletados no Estado e observaram sinais da mutação britânica
nas amostras mineiras.
“Já havíamos sequenciado genomas de Minas antes do momento da
primeira onda, em 2020, e agora voltamos a sequenciar amostras mais recentes,
de dezembro e janeiro. Será um trabalho contínuo, não só para rastrear
variantes que foram identificadas em outros lugares, mas também para
identificar se alguma nova surgir”, diz o virologista e professor da UFMG
Renato Aguiar, coordenador da iniciativa, que é apoiada pelo Ministério da
Ciência, Tecnologia e Inovação e pelo Ministério da Saúde como parte do
Corona-ômica, projeto de sequenciamento do vírus. Segundo ele, resultados
preliminares de trabalhos de colegas sugerem que a variante sul-africana também
pode estar no Estado, o que ainda precisa de provas.
Para cravar que
as variantes internacionais estão no Estado, ainda é necessário avançar no
sequenciamento. Por ora, a variante de Manaus não foi descoberta em solo
mineiro, e também não existe uma variante específica de Minas. O grupo
sequencia material de cerca de 50 amostras mensais, atualmente, e pretende
chegar a cem. O Centro de Tecnologia em Vacina (CT-Vacina), vinculado à UFMG,
também faz parte do projeto Corona-ômica. A Fundação Ezequiel Dias (Funed)
começou um trabalho similar, em que auxiliará o Ministério da Saúde no
sequenciamento de 300 amostras.
O projeto do professor Renato Aguiar havia sido interrompido em
2020 devido à falta de verba, que agora foi cedida pelos ministérios federais.
“Não conseguimos sequenciar a mesma quantidade que outros países, como a
Inglaterra, por falta de recursos. O sequenciamento é caro, custa de R$500 a
R$600 por amostra. Se não houver aporte, seja do ministério, da Secretaria de
Estado da Saúde ou da prefeitura, não conseguimos”, detalha Aguiar.
Além do
sequenciamento, ele diz que a UFMG iniciará um projeto para avaliar a resposta
imunológica de pessoas vacinadas ou curadas da Covid-19 contra as novas
variantes.
Ritmo lento de vacinação no Brasil favorece variantes
potencialmente perigosas
Quanto mais o Brasil demora a avançar na vacinação contra a
Covid-19, mais chances o coronavírus terá de evoluir para uma versão mais
perigosa. Ele não é um ser inteligente que planeje como pode infectar mais
gente ou se tornar mais ameaçador. Como qualquer vírus, depende da circulação
de pessoas para se espalhar e se replica sem parar no organismo dos infectados.
Quanto mais pessoas contraem o vírus, mais chances ele tem de se replicar, e é
aí que as mutações ocorrem: toda vez que o coronavírus se replica, copia sua
própria estrutura, mas inevitavelmente passam erros no processo. São as
mutações, que podem ser benéficas ou não ao vírus. Uma mutação que permita que
ele seja mais transmissível é uma boa notícia para ele, do ponto de vista
evolutivo, e uma péssima notícia para os seres humanos.
Uma das preocupações de cientistas é que o coronavírus tenha
chegado a mutações parecidas de forma independente em vários pontos do mundo
quase ao mesmo tempo, o que eles chamam de evolução convergente. Ela pode
indicar que ele está se adaptando para driblar um obstáculo: a quantidade de
pessoas que já foram infectadas. Em sua coluna no jornal “Folha de S.Paulo”, o
biólogo Atila Iamarino alerta que elas podem representar um escape de imunidade,
isto é, teriam mudanças o bastante para escapar do sistema imunológico de quem
já foi infectado antes.
O biólogo e pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp) Gabriel Maisonnave reforça a hipótese e destaca
a importância das vacinas para frear o avanço de mutações perigosas. “Não é à
toa que variantes mais perigosas surgiram em locais de surto. A vacinação não
impede a circulação dos vírus, mas a transmissão começa a diminuir quando 20%,
30% delas são vacinadas e despenca quando 70% são”, diz.
As principais vacinas que já são aplicadas no mundo parecem ser
capazes de conter os caso graves pelas novas variantes — embora a sul-africana
pareça enfraquecer algumas delas, inclusive a da AstraZeneca, disponível no
Brasil. O microbiologista e pesquisador do Instituto Questão de Ciência (IQC)
Luiz Almeida explica que as vacinas que utilizam RNA do vírus, opções da Pfizer
e da Moderna, podem ser adaptadas à novas variantes, e que a Coronavac, que
utiliza toda a estrutura do vírus, também deve dar conta do recado. “Ela tem
mais alvos para criar anticorpos. E as vacinas treinam muito melhor o sistema
imunológico do que a imunidade natural”, conclui.
Fonte: Jornal O Tempo