Brasil
Publicada em 30/01/19 às 08:22h
Veja histórias de quem sobreviveu por pouco ao rompimento da barragem em Brumadinho
Relatos de quem conseguiu fugir ao ver a lama de rejeitos, gente que foi resgatada após ser atingida pela lama, e pessoas que haviam acabado de deixar áreas que foram devastadas.

Boa Nova FM


Fuga desesperada pela mata, gritos de socorro, o vazio diante do deserto de lama: histórias de quem sobreviveu por pouco ao rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, na Grande Belo Horizonte, se acumulam.

As buscas entraram no quinto dia nesta terça-feira (29), com mais de 60 mortes confirmadas e quase 300 desaparecidos. Cinco pessoas foram presas suspeitas de responsabilidade na tragédia da barragem 1 da Mina do Feijão.

 

Os funcionários da Vale Claudiney Coutinho e Danival Vinicius saíram do refeitório da Vale poucos minutos antes de a lama devastar o local. Logo depois, avistaram uma mulher sendo arrastada pela lama e a seguiram até que ele parou, em uma área mais rasa, ferida e coberta de rejeitos.

Em um ato heróico, encostaram o caminhão e iniciaram o resgate. Com uma corda, conseguiram tira-la de da lama.

 

“Eu desci pelo mato. O mato estava com dois metros mais ou menos de altura. Eu pedi a ela para ela ter calma, para ela respirar. ‘Nós vamos chegar aí’”, disse ele.

A Pousada Nova Estância sumiu sem deixar rastros. O estabelecimento, um dos mais procurados da região e frequentado por famosos, estava no caminho da lama, perto da área administrativa da Vale. A violência da enxurrada, que havia derrubado metros atrás parte de uma ponte, arrasou o hotel e a vegetação no entorno.

José Antônio Soares Pereira, de 46 anos, funcionário e morador da pousada, ainda não encontrou a filha, Lays Gabrielle, de 14 anos, que está desaparecida. Os vizinhos conseguiram salvar a mulher e a cunhada. As três almoçavam em casa quando a pousada foi atingida.

 

A cunhada, Thalyta Cristina de Oliveira Souza, de 15 anos, estava quase sufocada quando conseguiu sair da lama de rejeitos e pedir ajuda. Foi resgatada por bombeiros, com a bacia e o fêmur quebrados e foi internada, junto com a irmã, no hospital de pronto-socorro João XXIII.

Em entrevista à BBC, Alessandra contou que a força da onda era tanta que a sensação era a de estar dentro de um liquidificador: "A única imagem que a gente tem é como se você estivesse dentro de um liquidificador gigante, sendo girada de um lado e para o outro, e sendo esmagada por pedra, pau, ônibus, veículo, porta, tudo que estava vindo para baixo, esmagando as pessoas, quebrando tudo".

Motorista escapou

 

Os donos da pousada estavam no local na hora do rompimento. O corpo de Cleosane Coelho Mascarenhas, a Cleo, dona da Pousada Nova Estância, foi identificado na segunda-feira. O marido dela, o empresário Márcio Mascarenhas, fundador da Number One, e o filho Márcio Mascarenhas Filho estão desaparecidos. Nesta terça, no enterro dela, o motorista da pousada contou como escapou por minutos.

Alisson Matos, de 43 anos, motorista executivo da família, deixou algumas mercadorias na pousada e saiu com o carro. Menos de 10 minutos depois, recebeu mensagem em grupos no WhatsApp informando sobre o rompimento da barragem.

"Meu celular tocou e me avisaram para tomar cuidado, pois a barragem tinha rompido. Me avisaram: 'Sai daí, sai daí". Quando passei atrás do Parque da Cachoeira, eu vi aquela lama descendo... Tentei voltar pra socorrer as famílias, mas não tive êxito. Tentei avisar a todos os meus funcionários que estavam lá, meus amigos", lembra.

Sobrevivente cita 'avalanche'

Vera Souza Araújo Vilaça e Geraldo do Carmo Vilaça correram em direções distintas para escapar da torrente de lama, como mostrou reportagem da BBC. Moradores do Parque da Cachoeira, souberam instantes antes que a barragem se rompera – e não tiveram tempo para mais nada a não ser fugir.

Vera estava na casa de um vizinho quando um rapaz esbaforido deu a notícia. Sem pensar, ela teve de correr morro abaixo – o caminho que a lama faria segundos depois – para salvar o marido. Atravessou cercas de arame farpado e uma pinguela e chegou à cozinha de casa, onde Geraldo a esperava para o almoço.

“Foi o tempo de levantar e fugir. Nós tivemos três minutos. Não tinha mais tempo, a avalanche já estava a 100, 50 metros da casa da gente”, conta Geraldo.

A mulher corria estrada afora, o marido foi para o carro. Mas deixou a chave cair e teve de fugir a pé. Não pelo mesmo caminho da esposa. Começou a ouvir o barulho aterrorizador da enxurrada chegando e precisou embrenhar-se na mata para não morrer.

"Corri uma subida de uns 120 metros, sem parar. Eu parecia até um menino de 17 anos. Mas eu tenho 70. Acho que é o instinto de sobrevivência.”

A lama engoliu a casa, o carro, o pomar, a horta, as 50 galinhas, os cachorros, os documentos, os álbuns de fotos. Tudo está abaixo de 10 metros de lama. Irmão de Vera, Manuel é um dos 288 desaparecidos.

Marido herói

A balconista Adriane Pereira Alves não teve tempo de fugir. Sua casa foi tragada pela avalanche de rejeitos. “Depois que eu estava presa que eu fui raciocinar que era a barragem", contou.

Soterrada, ouviu o vizinho gritar por ela em cima dos escombros. “Consegui passar a mão no vão do tijolo. Fiquei balançando a mão, e ele me achou”, lembra.

O marido, David, juntou-se ao socorro e tentava puxar a mulher, que continuava gritando porque estava com as pernas presas nos escombros. Ela estava coberta de lama.

Adriane ainda se recupera dos ferimentos. Uma das pernas que ficou presa nos escombros durante o resgate está parcialmente paralisada. “Do joelho para baixo, não sinto. Não consigo mexer o pé”, relatou.

 

 Por G1 BH




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